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Foto Prof. Dr. Rubens Belfort Jr em Matéria publicada na revista da FAPESP - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.

Matéria publicada na revista da FAPESP – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.

Especialista em oftalmologia geriátrica diz que os problemas de visão da maioria dos brasileiros podem ser resolvidos e modo simples e barato

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O professor Rubens Belfort Junior vem de uma linhagem de médicos oftalmologistas paulistas. A Clínica Belfort foi fundada pelo seu avô em 1933 e herdada pelo pai. Hoje, da família, trabalham lá Belfort Junior e Rubens, o único de seus quatro filhos que decidiu seguir o mesmo caminho. Apesar da tradição familiar, o lugar preferencial de Belfort é a universidade. É lá que ele ensina pesquisa, orienta e cria projetos que vão da pesquisa mais pura aos estudos aplicados de amplo interesse público.

Nos últimos anos, Belfort tem insistido em dois temas. O primeiro é a necessidade de o governo distribuir óculos genéricos para a população carente acima de 50 anos como forma de melhorar a qualidade de vida. O segundo é um alerta constante para os cuidados que médicos em geral e oftalmologistas em especial devem ter com a crescente população de idosos. Sobre esse último assunto organizou em 2009 o livro Oftalmogeriatria (editora Roca), em parceria com Marcela Cypel.

Professor titular da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Belfort é o único oftalmologista brasileiro membro da Academia Brasileira de Ciências, da Associação Nacional de Medicina e Academia Ophthalmologica Universalis e integrante do prestigioso International Council of Ophthalmology, além de ter sido presidente do Congresso Mundial de Oftalmologia. Até o ano passado comandava o Instituto da Visão, vinculado ao Departamento de Oftalmologia da Unifesp, para o qual conseguiu erguer um novo prédio, a ser inaugurado este ano. Hoje é o presidente da Sociedade Paulista de Desenvolvimento da Medicina, a maior entidade filantrópica brasileira na área de saúde e ligada à Unifesp, dona do Hospital São Paulo, administradora de 30 unidades de saúde e com mais de 26 mil funcionários em diferentes estados do Brasil.

Aos 64 anos, tem na ponta da língua numerosos projetos em andamento ou por fazer. Nem todos são meramente acadêmicos, mas todos nasceram a partir de seu trabalho na universidade. Abaixo, os principais trechos da entrevista.

No ano passado, seu livro em parceria com Marcela Cypel, Oftalmogeriatria, ganhou o Prêmio Jabuti como o segundo melhor de medicina do país. Por que a oftalmogeriatria se tornou importante?

– É simples, a população está envelhecendo no mundo inteiro e o prolongamento dessa fase da vida resulta em um grande impacto na medicina. Se você pensar em três ou quatro doen ças oftalmológicas, vai provavelmente se lembrar de glaucoma, catarata e degeneração macular. As três ocorrem na velhice. E é justamente nos países subdesenvolvidos onde se espera um aumento maior da população acima de 70 anos. É importante saber disso para entendermos os diferentes cenários de planejamento de pesquisa, ensino e atividades assistenciais. Não me refiro às pessoas de 65 anos, mas às de 80, 90 anos e daí por diante. Os centenários serão muito mais comuns entre nós. E os olhos dos pacientes mais idosos precisam ser vistos de modo diferente.

Tratar os olhos do idoso é mais difícil?

– Há uma série de valores médicos que não costumam ser aplicados adequadamente ao paciente idoso. Chega uma idade em que as pessoas se tornam mais lentas. Temos que respeitar o tempo da resposta e manter algo muito importante, que é a autonomia do paciente. Quando alguém de 80 anos vai à consulta com a filha, às vezes com a neta, há a tendência do médico de conversar apenas com quem acompanha, e não diretamente com o idoso. Há importantes aspectos psicológicos e de comunicação. E não podemos esquecer que, de todas as tecnologias, a mais importante na medicina segue sendo a comunicação. Mas há outros aspectos, igualmente importantes. Por exemplo, o ato de abrir um vidro de colírio e pingar no olho é trivial para o jovem. Mas para um indivíduo em que a mão treme e não enxerga o rótulo é muito mais difícil. O paciente idoso, às vezes, toma 15 tipos de remédio por dia. Trocar ou adicionar um medicamento sem necessidade não tem apenas impacto econômico, mas também social. E se o paciente não enxerga ou enxerga mal é muito mais complicado de realizar as atividades do dia a dia. Temos que contribuir para melhorar a qualidade de vida do idoso e não nos preocuparmos apenas em curar doenças. Até porque, algumas vezes, elas serão incuráveis. Precisamos perceber as doenças que têm impacto na qualidade de vida e concentrar esforços ali. Muitas vezes o paciente tem alterações já cognitivas, de memória, e elas não são evidentes. Ele vai à consulta, conversa de maneira aparentemente normal, sai com uma receita e, de repente, é como ter dado uma receita para uma criança de 4 anos que não sabe o que fazer com o papel. Isso é percebido quando o familiar liga e diz, “O que o senhor falou para meu pai quando ele esteve aí? Ele não se lembra de nada”. O livro Oftalmogeriatria trata desses problemas, além das situações técnicas oftalmológicas, e é, em parte, fruto da tese de doutorado da Marcela Cypel, para a qual acompanhamos octogenários, nonagenários e centenários. Já temos mais de 50 centenários em que estudamos a qualidade visual.

Quando começou o projeto?

– Há três ou quatro anos. Vamos iniciar agora outro projeto muito interessante em que examinaremos gêmeos, de septuagenários para cima, univitelinos e não univitelinos. Queremos saber o que é genético e o que é ambiental. Será que o indivíduo de 80 anos que tem um gêmeo univitelino vivo tem o mesmo tipo de doença ocular? Os próximos anos vão mostrar cada vez mais o impacto da epigenética e a genética.

Vamos falar de suas origens. O senhor vem praticamente de uma dinastia de oftalmologistas, correto?

– São cinco gerações de doutores. Meu bisavô, José Nunes Belfort Mattos, em 1900 e pouco, era astrônomo, diretor do observatório de São Paulo, e registrava a temperatura e o clima da cidade. Por exemplo, ele registrou que em 1918 nevou na cidade de São Paulo. Na casa da família, na avenida Paulista, estava instalado o observatório particular dele, que depois foi integrado ao governo de São Paulo e a própria história da astronomia e meteorologia paulista e da Universidade de São Paulo (USP). Talvez por causa disso e das lentes, meu avô, na medicina, tenha se interessado por oftalmologia. Ele trabalhou em Campinas no Instituto Penido Burnier, na década de 1920. Em 1930 veio para São Paulo. Era oftalmologista, político, comunista. Meu pai também foi oftalmologista, assim como eu e um dos meus filhos, que concluiu uma bolsa sanduíche de doutorado no Canadá e nos Estados Unidos. Mas é apenas uma feliz coincidência. Tenho quatro filhos e só um foi para medicina. Dos outros três, um foi para economia e as duas filhas para administração de empresas.

Por que fez primeiro doutorado em imunologia e depois em oftalmologia?

– Durante minha graduação gostava das questões de medicina preventiva, epidemiologia, moléstias infecciosas. Trabalhei com os médicos Walter Leser e Roberto Baruzzi, além dos irmãos Villas-Boas. Mas no final do curso mudei. Comecei a fazer especialização em oftalmologia e me interessei por doenças infecciosas oculares. Fiz um curso de ciências básicas nos Estados Unidos, onde a imunologia celular estava começando a aparentemente resolver muitos dos nossos poblemas. Tive a sorte de encontrar aqui na Escola Paulista de Medicina o brilhante Nelson Mendes, pouco mais velho que eu, já titular da imunologia. E fiz o curso da OMS [Organização Mundial da Saúde] no Instituto Butantan sobre o tema. A partir daí, com a boa orientação do Nelson e de outros na década de 1970, percebi que mais importante do que um doutorado em oftalmologia era fazer um em imunologia como oftalmologista. Afinal, transplante de córnea, uveítes, doenças infecciosas e mesmo retinopatia diabética e problemas chamados degenerativos à época mostravam-se já envolvidos com a imunologia e, hoje, biologia molecular. Como a pós-graduação em oftalmologia só existia na Universidade Federal de Minas Gerais, trilhei o caminho inverso: fiz o mestrado em imunologia e o doutorado em imunologia com o Nelson Mendes na Escola Paulista e, simultaneamente, apesar de “proibido”, fiz o doutorado em oftalmologia com o Fernando Oréfice e Hilton Rocha, em Belo Horizonte.

Como foi sua passagem pela Faculdadade de Medicina de Jundiaí?

– Terminei o mestrado, tinha menos de 30 anos e fui para lá como professor titular. Os meus residentes tinham quase a minha idade, o que era ótimo em termos de comunicação porque os conceitos são muito semelhantes. Hoje, aos 64 anos e sendo professor desde os 29, vejo como é progressivamente difícil atingir o jovem, o gap é cada vez maior. E aconteceu algo muito interessante nesse setor, que mostra a importância de os sistemas oferecerem o exercício do poder aos jovens. Dois professores da oftal mologia paulista que se destacaram, o Newton Kara José, em Jundiaí, Unicamp [Universidade Estadual de Campinas] e USP, e eu, em Jundiaí e na Unifesp, ambos começamos muito jovens. O Newton começou em Jundiaí, foi para a Unicamp e eu entrei no lugar dele. Quando saí para a Unifesp, entrou a Ana Luisa Höfling-Lima, também muito jovem, que agora é professora titular na Unifesp. Depois de me tornar professor titular na Unifesp e antes de assumir, resolvi tomar um ano sabático e fui para o NEI, o Instituto Nacional de Olhos do NIH [Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos]. Fiquei um ano desenvolvendo trabalhos com oftalmologia, imunologia e biologia molecular relacionadas principalmente ao HIV, contratado pelo NIH como visiting scientist, com privilégio cirúrgico. Quer dizer, podia operar norte-americano. Uma glória…Voltei em 1990, revitalizado.

O senhor sempre clinicou?

– Sempre. Sem clinicar eu morreria de fome, com a família grande que tenho. Além disso, o consultório traz oportunidades e desafios úteis para a vida acadêmica. Se não clinicasse e não precisasse de dinheiro teria me tornado um burocrata, sem contato com pacientes a não ser em slides ou situações artificiais. Acho que a vivência e o desafio clínico e cirúrgico do consultório são fundamentais. Lá eu concorro em oferecer atendimento com qualquer um, geralmente mais jovem, que esteja no mercado e não precisa ter mestrado, doutorado, livre-docência. Na universidade concorremos por concursos, financiamentos e por situações frequentemente irrelevantes aos problemas que os pacientes têm de resolver. Por sua vez, o ambiente universitário, crítico e inovador, é indispensável para manter o consultório atualizado

O senhor atende na Unifesp e na Clínica Belfort?

– Nos dois lugares e opero nos hospitais São Paulo, Einstein e Santa Cruz. Quando comecei na Clínica Belfort, em 1970, meu pai tinha 12 médicos trabalhando com ele. Há dois anos minha mãe, de 83 anos, me disse, “Ficamos tão felizes quando você foi fazer oftalmologia, nunca pensamos que fosse ‘destruir’ a clínica da família”. A clínica foi feita pelo meu avô e ele e meu pai sempre se dedicaram a ela. Meu pai era professor livre-docente, mas a vida dele era a clínica. Naturalmente ele foi percebendo que, apesar de sermos oftalmologistas, nosso trajeto de vida era diferente. Quando morreu, a clínica era praticamente ele e eu. Consultório para mim é fundamental, mas a universidade é a minha casa.

Vocês são quantos na clínica hoje?

– Eu, meu filho e mais duas oftalmologistas, também docentes, que trabalham lá um período semanal, também para complementar o atendimento e propiciar cobertura aos pacientes quando um de nós viaja.

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Leia o restante da entrevista em: http://revistapesquisa.fapesp.br/?art=4093&bd=1&pg=1

A hora dos óculos genéricos