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Revista Época – O alerta partiu do programa Alfabetização Solidária, o esforço comunitário de ensinar as primeiras letras a jovens e adultos de 581 dos mais pobres municípios brasileiros. Um dos alvos principais foi Pauini, um grotão amazonense onde 82% da população entre 15 e 19 anos não sabe ler nem escrever. Logo nas primeiras visitas, os educadores encontraram uma queixa persistente: os alunos enxergavam mal e cada vez mais arrastavam as carteiras para perto da lousa. Antes que os problemas de visão comprometessem o projeto, os professores que participam do programa pediram ajuda aos oftalmologistas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Os médicos enfrentaram vôos de monomotor e horas de barco pelo Rio Purus para cumprir a tarefa básica de realizar exames, aviar receitas e entregar óculos aos pacientes. Acabaram indo além e descobrindo uma lesão de córnea nunca antes descrita nas revistas científicas.

Dos 524 moradores observados, 4% apresentavam pequenos círculos brancos na periferia da córnea que chamaram a atenção dos especialistas. A lesão pode causar cegueira ao aproximar-se do centro da córnea, mas não foram observados casos desse tipo. Nos pacientes estudados, a anomalia provocava apenas uma irritação nos olhos. Em busca das causas do problema, os pesquisadores colheram amostras de sangue desse grupo e as enviaram ao Instituto Nacional de Saúde (NIH), nos Estados Unidos. Análises genéticas apontaram vestígios da filária Mansonella ozzardi, um parasita transmitido por insetos da família Simulium, popularmente chamados de mosca-negra. Eles proliferam em regiões de águas paradas, mas é difícil acompanhar a estratégia de ataque. As picadas responsáveis pela doença passam despercebidas entre as dezenas de outras que os ribeirinhos enfrentam todos os dias.

Por enquanto, os pacientes da doença, batizada de mansonelose, reclamam apenas de fadiga, sintoma característico de uma infinidade de males. Mesmo assim, os médicos consideram alta a incidência e querem continuar acompanhando os moradores para entender as formas de manifestação, evolução e tratamento da doença. Os dados coletados já renderam um trabalho que será apresentado em maio, durante o Congresso da Associação de Pesquisa em Visão e Oftalmologia, na Flórida. Por enquanto não existe tratamento para a lesão, mas o professor do Departamento de Oftalmologia da Unifesp, Rubens Belfort Júnior, acredita que a presença dos pesquisadores estimulará a população a reivindicar atenções básicas. “Atendi pacientes de 50 anos que nunca haviam visto um médico antes”, conta.

Das pessoas examinadas, 178 precisavam de óculos. A maioria, 103 indivíduos, tinha presbiopia, vista cansada, o que dificulta a leitura. Outros 18 apresentavam miopia, hipermetropia e astigmatismo. Os demais conviviam com catarata, alterações da retina, toxoplasmose e pterígio (pequena pele que cobre a superfície do olho). Outra descoberta importante foi a concentração de cegueira noturna, causada por retinose pigmentar. A doença, incurável e de origem genética, aparece em regiões isoladas, onde é comum o casamento entre parentes. “Muitos moradores acham normal não enxergar no crepúsculo e não sabem que existem óculos”, comenta Belfort.

As dificuldades de visão colaboram para que a cidade ostente o título de campeã nacional de analfabetismo, apurado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Mas seria simplista demais atribuir a falta de instrução apenas aos defeitos oftalmológicos. Com apenas 17 mil habitantes, Pauini ocupa um território do tamanho do estado de Alagoas, fragmentado em vilas ao longo do Rio Purus. Os ciclos de cheia e vazante das águas comandam a vida dos moradores, que chegam a passar até dois meses ilhados em palafitas. Quando o rio está baixo, dormem em casa. Quando ele sobe, amarram a canoa na cabana e mudam-se para a embarcação. O isolamento populacional que caracterizou o ciclo econômico da borracha persiste ainda hoje na cidade, que vive da cultura de subsistência e da verba do Fundo de Participação dos Municípios. Sem perspectivas de trabalho, os jovens não têm motivo para ir à escola. “Falta estímulo externo para aprender a ler e a escrever”, comenta a professora da Universidade São Marcos, de São Paulo, Virgínia da Costa Liebort Nina. “Não há sequer cartazes para ver.”

Mesmo assim, o Alfabetização Solidária tem produzido mudanças. Patrocinado na cidade pela empresa Volkswagen (que paga R$ 17 por mês por aluno) e coordenado por educadoras da São Marcos, o programa treinou 93 professores leigos que acompanham 250 alunos a partir dos 15 anos. Mais do que ensinar o bê-á-bá, os professores pretendem envolver lideranças da própria comunidade e chamar a atenção para os problemas da região. Foi para isso que organizaram um seminário no final do ano passado sobre educação, saúde e trabalho.

O oftalmologista Belfort e os colegas Wallace Chamon, Bruno Castelo Branco e Rubens Belfort Neto pleiteiam algum patrocínio para instalar em Pauini um centro de pesquisa e realização de cirurgias como catarata e glaucoma. A entrega de óculos, doados pelo óptico Miguel Giannini, dono de uma conhecida ótica de São Paulo, vai continuar. Em pouco tempo, casos como o da senhora de 60 anos que freqüentava as salas de alfabetização com óculos surrados serão recorrentes apenas na memória de Virgínia. A aluna, que queria aprender a assinar o nome, dividia com o irmão as lentes riscadas que foram do pai.

Matéria de Cristiane Segatto publicada na Revista Época em 05/04/1999

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Pesquisadores encontram lesão desconhecida de córnea em cidade campeã de analfabetismo do país