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É possível anexar carinho e respeito no design do consultório? Sim, mas a reforma não é decorativa, tem que ser cultural.

Um amigo, a quem eu respeito muito pelo saber e “pelo saber ser”, comenta da frustração que sentiu ao procurar “ótima” clínica oftalmológica e sugere escrever sobre a necessidade de manter a humanização no atendimento oftalmológico, na medicina.

Não se referia ao SUS ou aos convênios, mas à consulta particular, “cara para muitos”. A desculpa é sempre que o médico tem que correr e não pode se portar como médico porque é mal pago. Assim, a falta de humanização e de profissionalismo em uma consulta particular e “cara” adquire características caricaturais. A desculpa do preço baixo deixa de existir. É fruto da desumanizarão mercadológica baseada na (tentativa de) acumulação de capital (lucro) e maior “utilização” do tempo. Assim, se atende muito rapidamente, utilizando diferentes assistentes que rapidamente elaboram rótulos diagnósticos e terapêuticos como glaucoma, mácula, uveíte, laser, low vision, subnormal etc.

O paciente em minutos ouve que é senil, degenerado, deficiente visual profundo, pode ficar cego a qualquer momento, ter de tomar injeção no olho, pagar caro, talvez nada funcione e… passa a ser subnormal, com direito a reabilitação etc. Ou que, isso mesmo, nada a fazer: tome uma vitamina de preferência cara e importada! Ou troque os óculos por aqueles que mudam de cor. São ótimos e vão resolver o seu problema, evitando a catarata e a degeneração.

Dá para anexar carinho e respeito no design do consultório? Sim, mas a reforma não é decorativa, tem que ser cultural.

Levantar a moral do paciente, mostrar tudo de bom que ele pode e deve fazer pela vida com a visão que tem e esperar pelos avanços às vezes rápidos e surpreendentes da medicina fazem parte da prática do médico, que deve lembrar de partilhar com o paciente.

Provavelmente a essência da medicina é tudo aquilo que o médico vem fazendo nos últimos mil anos e continuará a fazer no futuro. Aquilo que não depende do medicamento da tecnologia da época. Mas o ato de observar, ajudar, amparar e tentar curar.

A palavra continua sendo uma das ferramentas mais importantes do exercício e do sucesso da medicina. É a base da comunicação, e muitas vezes nós médicos esquecemos que o importante não é o que falamos, mas o que o paciente ouve, da maneira que ele entende.

Também esquecemos que, como no relacionamento com os nossos filhos, o tempo é fundamental e a pressa desgasta e freqüentemente deteriora o relacionamento. A terapia da palavra, pela palavra, é mais do que repetir informações, mas apresentá-las dentro de um contexto temporal e racional que o paciente entenda e sinta adequadamente, por estar inserido em um contexto afetivo e sociocultural, ou seja, dentro do vocabulário do paciente. Nada contra que informações sejam colhidas pelos integrantes da equipe, mas também o médico procurado deve dignar-se “a ouvir o paciente” e retomar a conversa com ele, mostrando estar a par do que já foi dito.

Todos iguais na doença Aprendi há muitos anos de um paciente que “se o seu médico não tem tempo para falar com você, troque de médico”. Passou a ser também verdade para mim, quando como paciente procuro médicos. Aliás, a enorme maioria dos médicos, quando precisam de médico e tornam-se pacientes, procuram um médico que vai além da tecnologia. Com você também não é assim? O que nós médicos sentimos quando ficamos doentes e desamparados? Queremos apenas um ótimo hospital e tecnologia? Ou procuramos seres humanos neles? Sim, o exercício da oftalmologia moderna é baseado na tecnologia, mas continua inserido na relação médico-paciente, na comunicação adequada, vínculo afetivo, respeito e muito mais.

A medicina tem o objetivo de ajudar os outros a manter e a recuperar a saúde. Sua essência transcende os séculos. Na Grécia, Mesopotâmia e Egito antigo praticava-se a medicina da mesma maneira que agora. Dispa-se a medicina de todas as tecnologias e técnicas, persiste algo essencial, nuclear, a vontade de ajudar a recuperar e a preservar a saúde, através do emprego de práticas e tecnologias. Quando lidamos com pacientes mais idosos temos que ter consciência de que, além da comunicação verbal, também a não-verbal, a postura e o vestuário passam uma mensagem. A dimensão de tempo do paciente é freqüentemente diferente da vivida pelo médico. O paciente quer sempre descrever os seus sintomas e expressar as suas queixas para o médico a quem procurou. Freqüentemente não inclui a recepcionista, o técnico ou o assistente como seu ouvinte preferencial.

É triste comparar o aluno do 1o ano de medicina com aquele que está terminando o curso. Entram os melhores. Aprovado em exame difícil e prestes a começar a realizar o seu sonho profissional de ser médico. Infelizmente alguns podem ter o sucesso profissional, econômico ou o poder como força impulsora, mas a enorme maioria está lá porque ser médico significa ajudar os outros a ter saúde. Passam-se anos, e o sistema acaba corrompendo muitos. A postura ética freqüentemente não existe. Como é triste ver o médico ou o estudante de medicina se arrumar, se enfeitar, fazer barba ou colocar um avental limpo porque vai examinar o professor ou uma pessoa importante. Como é triste ver o estudante de medicina de mochila nas costas, barbado, sujo, sem avental só porque está atendendo pacientes pobres. Como é mais triste ainda vê-los assim ao lado de médico ou professor que deveria estar contribuindo para a postura adequada dessas pessoas. Sem dúvida a veste não faz o monge, mas a postura ajuda a identificar o monge. Fazer barba, pôr gravata ou avental porque vai atender um paciente importante ou em lugar rico é degradante.

Aos hospitais públicos vão famílias cujos pais tiram as crianças doentes de madrugada de casa, para ir ao médico, enfrentam filas para ver o médico e, ao final, ao se encontrar com ele, muitas vezes, têm profunda decepção.

Sem dúvida o médico também é vítima do sistema, mas a ele cabe manter, apesar das circunstâncias, sempre a sua postura de médico.

A tecnologia na medicina não é nova. Tem mais de 200 anos, e o que consideramos hoje grande novidade nada mais é que a continuação de algo extremamente importante, mas que surgiu séculos atrás. Como a globalização que, poucos sabem, começou no século XVI.

A tecnologia não pode ter processo onde a atenção, o tempo, a postura e o ato médico perdem consistência.

Deve-se investir sim na tecnologia e fazê-la trabalhar para a medicina melhorar. Mas deve-se também investir na tecnologia da comunicação e na tecnologia da humanização.

Na prática oftalmológica vemos pacientes passarem de médico para médico, em uma ou diferentes clínicas, e receberem diagnósticos duros e vazios, com receitas frias ao lado de condutas inadequadas, freqüentemente mercenárias. Mandar um indivíduo para Visão Subnormal dizendo que nada há a fazer é um exemplo. Cada vez mais nós oftalmologistas lidamos com pacientes idosos, e degradá-los como subnormais é freqüentemente um acinte.

Nada substitui o tempo e a atenção do médico para com aquele paciente. Os mesmos óculos com uma luz mais forte podem substituir freqüentemente auxílios para subnormais. Vale reiterar: um aspecto importantíssimo é a comunicação. Temos que falar adequadamente e com o tempo demandado pelo paciente, que, aliás, tem dimensão diferente nas idades mais avançadas, quando as palavras têm que ser faladas mais devagar e com cuidado. Apresento abaixo pontos da mensagem recebida no mês passado de pós-graduanda atendida pelo SUS: “Foi a primeira vez, depois de tanto tempo, que dormi tranqüila, porque finalmente sabia o que acontecera comigo, o que poderia esperar, o que poderia ou não fazer. E tudo o que vivenciei foi para mim um ensinamento. De luta, de perseverança. Um trabalho que envolve competência e humanidade como pares inalienáveis para a atenção completa daqueles que chegam lá, sem nenhum suporte. Eu não fui somente um olho doente, nem um número quantificável nas estatísticas, era uma pessoa completa, ouviram a minha história como a dos outros que ali estavam, fui atendida integralmente, informei-lhes sobre o meu passado (o histórico de minha doença) e informaram-me do meu futuro (as perspectivas de melhora). Não me deram remédios, deram-me esperança. E não somente de melhoria de minha visão, mas de que é possível pensar caminhos transformadores, pois já existem ações locais que transformam o que procuramos defender como atendimento e acolhimento na saúde pública. E ouviram-me, olharam-me cuidadosamente, muito melhor do que todos os consultórios em que fui do sistema privado. Eu tinha ido a um oftalmologista que, enquanto ele me pedia para lhe contar o motivo pelo qual estava lá, ele ficava atrás da tela do computador digitando o que eu dizia, sem sequer me olhar. Distanciamento e frieza justificados pelo aparato tecnológico. Levei a outro oftalmologista os exames que fizera, solicitados por outros médicos, e este sequer os examinou, por quê? Não precisava?

Eu não trabalho na área da saúde, estudo filosofia, que é essa amizade pela sabedoria. Então, descobri que vocês, da área da saúde, são de uma sabedoria invejável, porque lá encontrei um saber que já é uma prática, que se realiza a cada dia, na integridade da saúde, do corpo e de um indivíduo de sentimentos, devolvendo para nós o respeito que fora tomado pela doença. Recebemos e percebemos perspectivas de um futuro melhor, não só para a saúde dos olhos, mas para a alegria do espírito que conheceu o trabalho que lá é desenvolvido, com carinho e seriedade. A vivência desse aprendizado é inesquecível e farei o possível para reproduzi-la nas minhas atividades e nas minhas ações”.

Artigo publicado na revista Universo Visual em Novembro de 2007

Tecnologia da humanização na medicina – Prof Rubens Belfort Jr.